De: Paulo Espinha - "Obrigado Manoel, Sempre!"

Caro Manoel,

Escrevo-te estas linhas pela elevada consideração que tenho por ti. Como sabes não vi todos os teus filmes e curtas mas vi um número razoável para poder com humildade agora tecer algumas considerações.

Desde já concordo com a comparação por vector de carreira e obra com a análise do teu percurso em paralelo com, por exemplo, o de Jean-Luc Godard – percursos de autor à revelia do mainstream… quase como em diálogo com a própria expressão cinematográfica, também a te sentires desafiado por outros autores como Luis Buñuel e Alfred Hitchcock, mas uma luta só tua, muito própria: a palavra suportada na expressão mais teatral que de cinema, logo nos actores de teatro e da fruição infinita de milhares de quadros até à exaustão… muitas vezes voltando à mesma questão anos mais tarde, logo, questões não resolvidas da primeira vez… Como é óbvio, algumas vezes acertaste no porta-aviões, outras muitas vezes na água…

Sobre a tua preocupação ou despreocupação com a morte, o legado, não dou o caso como terminado… tenho dias e tenho filmes… posto que nuns és tu, noutros é a morte deles…

Como gosto muito mais de cinema que teatro, a tua plástica não é propriamente a minha praia… eu sei, dizes que a culpa é minha… talvez seja, este meu sem jeito em interagir a partir da plateia com eles no palco… aquele refúgio meu filtrado pela tecnologia antes analógica e hoje digital… pois, mas um dos pares de olhos mais bonitos do cinema ficam assim meios vidrados de filme para filme…

Mas aceitando a tua plástica de modo integral fica apenas uma ressalva: teatro sim, agora querer à força construir actores… tás a brincar? “Este amigo aqui vai ser actor de cinema nos meus filmes porque eu quero!” – ouve lá Manoel, foi demais… passaste-te da cabeça… não se faz isso ao rapaz nem a tiro de canhão… depois a “pôva” acha que pode ser actor nos “morangos com açucar”… é por essas e por outras que já ninguém dá crédito ao conservatório…

Em contraposição, magistralmente saltaste da Ribeira dos “Palavrinhas” e do Douro da Agustina, e até de Famalicão, para o mundo e para a dupla janela de fé em Istambul… aí foste brilhante… e não é para todos pôr três mulheres a encostarem um homem às tábuas: uma a falar francês, outra italiano e outra grego e ele a desculpar-se com o seu esperanto – o inglês… claro, acaba o filme de boca aberta…

Jamais esquecerei os teus: “Aniki-Bóbó“, “Vale Abraão“, “A Caixa“, “Um Filme Falado“, “Belle Toujours“, “Viagem ao Princípio do Mundo“, “Mon Cas“, “Palavra e Utopia“ e mais alguns outros… (sem ordem temporal). Os estudantes de comunicação e design gráfico jamais esquecerão “Douro, Faina Fluvial” e “O Pintor e a Cidade” e o “Lisbon Story” do Wim Wenders… as memórias…

Mas, Manoel, jamais poderei aceitar que os contribuintes tenham patrocinado as fotografias do teu neto à Angélica que é nada…, que o Isaac dormisse, comesse e morresse no mesmo cenário montado de diferentes modos, que o João não passasse da sala de entrada para gamar o dinheiro dos clientes do pai, que a Francisca tenha passado voltas e voltas a cavalo em círculo, que o Alferes Cabrita, mais que saber, tenha tal dimensão crítica sobre a história de Portugal… não é verosímil, que o teu Dom Sebastião seja o do José Régio… acho que era pior ainda…, que me lembre não haja um único beijo arrebatador à Valentino em toda a tua obra ainda que concorde que não podia ser a Ema a dá-lo, e que me lembre também apenas umas mamocas da “Depois Santa” em “A Divina Comédia” onde se aproveita apenas o monstro Mário Viegas, a Maria de Medeiros e o Miguel Guilherme… e algures os tornozelos da Catherine Deneuve como lembrava um amigo há uns dias…

Para mim é certo que não foste para a cama com qualquer uma das tuas actrizes fetiche… ou então foste com todas e por isso é que guardaste para ti a pele… nã, não acredito… sendo assim, foi uma pena não termos mais carne viva… sangre… tem outro salero… e para rivalizar com as traqueotomias do Almodóvar apenas o desconstruído d’“Os Canibais”, Manoel, é pouco, muito pouco… a vida faz-se também da pele… como tão bem rima David Mourão-Ferreira…

E agora tenho uma triste notícia a dar-te: por aqui “as amizades” viram poucos filmes teus Manoel… Andam por aí umas verdadeiras excepções como aquele amigo que afirma ter visto quase todos com o seu dono, mas, a verdade Manoel, é que a tua explosão internacional com o “Francisca” levou a elites a irem ao cinema ver um ou dois dos teus filmes mas logo desistiram – não estavam preparados para algo a fugir ao “português suave”… Estavam habituados à pré-modernidade da “Canção de Lisboa” do Cottinelli Telmo ou do “Leão da Estrela” do Arthur Duarte… (não desfazendo) e na altura não aguentaram o realismo do Aniki-Bóbó nem mais tarde a agressividade d’“A Caça”…

Manoel, não quero acabar estas linhas sem te dizer que te compreendo… deve ter dado um gozo do outro mundo… - o império do processo… valeu! Até no processo de angariação de dinheiro, nomeadamente, os subsídios do contribuinte… gostaria de um dia ver alguns dos teus textos argumentativos para alguns dos filmes – devem ser magistrais! Em especial o de Angélica – a morta à nascença… que pisca os olhinhos e voa pelo Douro como ninguém já não de lancha a motor mas com a energia que só as almas… Nesta do processo e do argumento a Cidade do Porto ajudou a construir algumas almas como só tu e elas mas estas nas artes plásticas, na escrita, na medicina, na arquitectura e na engenharia até… a sua arte e o seu argumento!

Resta-me avisar-te que quando nos encontrarmos de novo te vou dizer duas ou três que caíram fora do pote… e

Obrigado Manoel, Sempre!